
SUPEROUTRO – 1987/89
(Direção: Edgard Navarro*)
O filme tem como cenário as ruas da Cidade de Salvador e como personagem central a figura tragicômica de um louco de rua, anti-herói contemporâneo que através de sua imaginação caótica e alucinada tenta libertar-se da miséria que o assedia. Apesar dos sucessivos malogros no confronto com uma realidade hostil e indiferente a seu ingênuo esforço, nosso herói irá manter-se fiel a sua índole rebelde, lúdica, anárquica e libertária, terminando por subverter a própria lei da gravidade, ao empreender um vôo redentor sobre a cidade amada, em sua última e desesperada fantasia - patriótica, absurda, terminal.
Com Bertrand Duarte, Nilda Spencer, Edneas Santos, Inaldo Santana, Fernando Fulco, Irema Santos, Wilson Mello, Fafá Pimentel, Edísio Patriota, Frieda Guttman, Kal Santos e Jorge Reis produtor_Alexandre Barroso argumento_Edgard Navarro fotografia_Lázaro Faria som_ Zeca Borges montagem_Edgard Navarro
*EDGARD NAVARRO é um cineasta brasileiro importantíssimo que urge revelar por todos os meios, devido à sua originalidade e aos seus códigos particulares. Cineasta inquieto e visionário, construiu uma obra interessantíssima fora dos principais eixos de produção, realizando filmes que são pinceladas fortes na criação de um quadro composto por elementos anárquicos impactantes. Um cinema diletante e insubmisso que rejeita os valores estabelecidos para nos expor o estado de alma de um povo.
Desconstruindo Rubem Fonseca
(Fragmentos desordenados do conto Pierrô da Caverna, 1979)
“Existem pessoas que não se entregam à paixão, sua apatia as leva a escolher uma vida de rotina, onde vegetam como ‘abacaxis numa estufa’, como dizia meu pai. Quanto a mim, o que me mantém vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes, amor, ódio, gozo, misericórdia. Perguntou se eu estava escrevendo alguma coisa. Essa é uma pergunta que vivem nos fazendo, a nós escritores, como se não parássemos nunca de escrever; nós paramos, e às vezes damos um tiro na cabeça por causa disso. Eu nunca seria capaz de escrever sobre acontecimentos reais da minha vida, não só porque ela, como aliás a de quase todos os escritores, nada tem de extraordinário ou interessante, mas também porque eu me sinto mal só de pensar que alguém possa conhecer a minha intimidade. É claro que eu poderia camuflar os fatos com uma aparência de ficção, passando da primeira para a terceira pessoa, acrescentando um pouco de drama e comédia inventados etc. É isso o que muitos escritores fazem e talvez seja a razão pela qual a literatura deles é tão fastidiosa. Querer produzir as belas letras é tão ruim quanto querer ser coerente. Eu sou diferente a cada semana, a cada dia, sou contraditório, bruto e delicado, cruel e generoso, compreensivo e impiedoso. Para falar a verdade eu não sou um cínico, não sei ser irônico, sarcástico, sou tímido e orgulhoso, mas meu orgulho não tem arrogância nem ostentação, apenas auto-estima. Um vento forte soprava do mar; eram cinco horas da tarde de uma sexta-feira da paixão. Só isso”.

ENTREVISTA
Herculano Neto e Vanessa Rodrigues
falam sobre TRANSA:
PRÊMIO BRASKEM DE CULTURA E ARTE – 2007
Categoria Literatura
Promovido pela FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO, tendo como comissão julgadora Antônia Torreão Herrera, Bete Capinan e Maria Sampaio, selecionou entre os inscritos os seguintes projetos:
CINEMA – Herculano Neto (poesia)
CALENDÁRIO – Márcia Tude (poesia)
CAFEÍNA – Victor Mascarenhas (contos)
Os vencedores serão publicados pelo selo CASA DE PALAVRAS.

Para comemorar 1 ano de MOJO, uma edição especial, um álbum duplo de um dos maiores ícones da música brasileira: Transa, de Caetano Veloso. Duas visões distintas do mesmo disco, duas histórias que falam direta e indiretamente dos prazeres e dores de ser brasileiro longe de seu próprio país. Transa foi mojificado por Herculano Neto e por Vanessa Rodrigues.
Escute os poemas de Herculano Neto recitados pelo autor:
http://palcomp3.cifraclub.terra.com.br/herculano/
ANACRÔNICA
Herculano Neto
“Pergunte ao seu Orixá:
o amor só é bom se doer”.
Vinicius de Moraes
Salvador, dezembro de 1998
Hoje acordei com a alegria que as canções trazem pela manhã, mas você fez do meu dia um dia triste (e eu acreditava que nada poderia apagar aquelas cores). Com a razão neblinada não consegui perceber e até pensei em tatuar o seu nome, entre ramos, no meu braço, pensei em ser você e pensei em não pensar em fim. Apostei minhas fichas na discrição, mas pouco ajudou chegar sem alarde ou sair sem adeus.
Há momentos em que tudo parece ser difícil, quase impossível, como fazer Mxyptlk dizer seu próprio nome ao contrário. Ainda assim, conservo diurnamente a esperança da sua chegada, acredito nas cores do dia e duvido de mim quando a noite chega trazendo a certeza de sua ausência. Às vezes quero você, outras vezes quero ser como Kevin em “Anos Incríveis”. Tento não dar espaço às lembranças de sexo e entorpecentes ocupando o meu tempo ocioso com Beatles e poesia – não adianta: cada canção do Rubber Soul tem um pouco de você e cada verso de Cecília Meireles, como outros de Leminsky, projeta sua face no meu inconsciente. Às vezes quero você, outras vezes quero ser como Paul em “Anos Incríveis”.
Tanta vida passou e os sonhos fizeram de mim um desenho macabro, e nada que eu fizer agora, nada, será suficiente para preencher essa vastidão que se tornou minha moradia. Fechado para possibilidades, aberto para questionamentos. Quem poderá, em mim, encontrar abrigo? Não pretendo esgotar minhas lágrimas em um ato final de pura vaidade, até porque o tilintar delas chocando-se no assoalho me ojeriza. Se era pra ser tolerante eu poderia ter sido, mesmo quando você me observava, de soslaio, em silêncio à mesa; ou quando, parado no meio da escada, imaginava os degraus que você subia e descia ruidosamente.
Lembro que a primeira vez que vi seus olhos eles eram rubros e o meu mundo cinza, havia algo em mim muito pretensioso, ingenuidade típica de quem cresceu em Salvador (pseudo-cosmopolita). Aprendi com você a tingir meu mundo e me acostumei com a mutação do seu olhar ao amanhecer. Hoje, para qualquer madrugada longe dos seus olhos, há duas doses de absinto.
* * *
Não sei onde guardei minhas miniaturas do “Comandos em Ação” - dentre os vestígios da infância eram as únicas que haviam restado (a coleção dos Thundercats não sobreviveu às neuroses da adolescência) e agora sem saber onde as coloquei não me sinto mais adulto nem menos infantil, talvez elegantemente arrogante.
* * *
Estava escutando Smiths antes de começar a escrever, provavelmente seja a trilha sonora perfeita para a indiferença. Sei que você odeia a voz de Morrissey, o que torna, para mim, a banda ainda mais interessante.
AUTO-RETRATO TERCEIRIZADO
Herculano Neto é poeta, ficcionista, roteirista de filmes inacabados, blogueiro, letrista de música popular, cineclubista... Teme ser comparado ao pato (que nada, caminha e voa, mas faz as três coisas muito mal). Desconforta a alcunha de poeta, porém tem aprendido a conviver com ela – só não gosta quando pedem para recitar, parece os que pedem para o peixe-palhaço contar uma piada em “Procurando Nemo”. Gosta de ser lembrado como o neto do Herculano, talvez por isso fale sempre na terceira pessoa – não se sente, ainda, proprietário do nome. Santamarense que não pede bênção, funcionário público na capital da Bahia, um tímido incorrigível. Adora filmes, fotografias, cultura pop, edições antigas autografadas para desconhecidos, autores de sua geração, quadrinhos e música (em casa tem dificuldade para organizar tanta tralha, é possível que ao desencarnar sua família venda tudo a peso para o sebo de Brandão ou para a Berinjela). Foi publicado e gravado, no entanto possui um espírito inédito – acredita que não foi devidamente explorado. Avesso a modismos, tem calafrios ao ouvir a palavra “tendência”. É viciado em solidão, mas não resiste a um abraço. Tem telefone celular porque não tem jeito, às vezes atende as ligações. Perde a razão por causa do Bahia, para o bem e para o mal. Abandonou a Coca-Cola, mas não Campari com soda. Trocou recentemente o Atari que herdou do tio no natal de 1988 por um Supernintendo que o sobrinho abandonou no armário do quarto, porém é comum ser flagrado altas horas jogando Space Invaders.
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